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id da página: 3476 Chuang Tzu – Elorduy

Chuang Tzu Elorduy

Carmelo Elorduy — Chuang-Tzu


Excertos do livro de Carmelo Elorduy, Chuang-Tzu, Monte Avila Editores, 1991

É muito pouco provável que Chuang Tzu se tenha retirado à doce quietude do wu wei (não agir) por haver fracassado em sua carreira política. Sobravam-lhe talento e prestígio para aspirar a ser ministro e conselheiro de qualquer dos numerosos reis ou senhores feudais de seu tempo. Em sua obra, vemo-lo elevar-se muito acima dessas ambições. O leitor encontrará numerosas anedotas a esse respeito. Citarei duas das mais pitorescas e saborosas.

Chuang Tzu pescava no rio Pu. O rei de Chu enviou-lhe dois mensageiros que lhe dissessem de sua parte: Tenho a intenção de incomodar-te pedindo que tomes sob teu cuidado o governo de meu reino. Chuang Tzu, com a cana na mão, sem dirigir-lhes um olhar, respondeu: Ouvi dizer que o rei de Chu possui uma tartaruga mágica que morreu há já três mil anos. O rei a guarda em seu palácio, encerrada num cofre, bem envolta em panos, para servir em suas adivinhações. Essa tartaruga teria desejado morrer para que seus ossos fossem assim honrados, ou teria preferido continuar viva arrastando a cauda no lodo? Os dois ministros responderam: Teria preferido viver e arrastar a cauda no lodo. Chuang Tzu replicou: Ide. Também eu prefiro continuar arrastando a cauda no lodo.

A segunda anedota vem logo a seguir e refere-se a seu grande amigo Hui Tzu.

“Hui Tzu era ministro do rei de Liang. Chuang Tzu foi visitá-lo. Alguém disse a Hui Tzu que Chuang Tzu havia vindo para substituí-lo no cargo de ministro. Temendo isso, Hui Tzu pôs-se a procurá-lo por todo o reino, durante três dias e três noites. Chuang Tzu foi encontrá-lo e lhe disse: No Sul vive uma ave chamada yuan chu (espécie de pavão), conhece-a Vossa Senhoria? Levanta voo nos mares do Sul e voa até os mares do Norte. Não se pousa senão nas árvores wu tung (firmiana platanifolia). Não se alimenta senão de frutos escolhidos. Não bebe senão a água das fontes doces. Eis que uma coruja tinha um rato morto que apanhara. A ave yuan chu passou voando por cima dela. A coruja olhou para cima e soltou um grasnido: Hum! Não é verdade que também hoje Vossa Senhoria me lançou um “hum” para defender sua presa do reino de Liang?”

O último capítulo de sua obra, o capítulo 33, é muito apreciado pelos historiadores da cultura chinesa. Nele passa em revista os escritores das diversas escolas e os julga com grande equanimidade e acerto. Ao chegar a Chuang Tzu, depois de haver ponderado a grandiosidade de seus pensamentos e expressões, diz o seguinte:

“Às vezes é livre e licencioso, mas nunca partidário nem apegado às próprias opiniões. Como o mundo está demasiado afundado no lodo para poder ouvir os ensinamentos de Chuang Tzu, este os vertia em seus ditos como taças que se voltam ao ficarem cheias. Certificava-os com adágios e ampliava-os pondo-os na boca de outros. Só ele foi capaz de andar e de entreter-se com o Espírito do Céu e da Terra, sem desprezar altivamente o restante dos seres. Não se punha a julgar o bem e o mal, e por isso pôde coexistir com os mundanos. Seus escritos, embora sejam joias preciosíssimas, rolam entre as outras coisas sem tocá-las nem feri-las. Suas expressões, ainda que variadas e multiformes, são sempre sutis, encantadoras e admiráveis. Na densidade, seus pensamentos são inesgotáveis. Nas alturas passeia com o Criador das coisas, e aqui embaixo deleita-se em ser amigo daqueles que se despreendem das diferenças entre vida e morte, princípio e fim. Da Raiz ou Princípio (do Tao), fala com grandiosidade e amplitude, profundidade e facilidade... obscuro e confuso, é inesgotável.”

Discute-se se o autor desse importante capítulo é o próprio Chuang Tzu, que o teria escrito como apêndice introdutório de sua obra, como acredita Liang Ch’i-ch’ao, ou se é de algum de seus discípulos menos intolerantes com a escola confucionista, ou talvez, como sustenta o padre Wang Ch’ang-chih, de um confucionista bem harmonizado com os taoístas. Seja como for, sua crítica sobre Chuang Tzu é muito acertada. Se os muitos escritores que escreveram sobre Chuang Tzu a tivessem tomado como guia, não estaria tão desviada e confusa a crítica do taoísmo. Todos os autores reconhecem em Chuang Tzu seu elevado misticismo, ainda que, ao interpretar sua doutrina, seus juízos fiquem muito aquém de sua alta espiritualidade. A causa dessa subestimação está em confundir o Tao, ideia vertebral de sua espiritualidade, com a natureza das coisas.

Chuang Tzu sentia profunda atração e admiração pela grandeza infinita do Tao. O mar inesgotável e o espaço imenso dos seis pontos cardeais (quatro horizontais e dois verticais) eram, para ele, a imagem visível da infinitude do Tao invisível.

O capítulo 17, “A enchente outonal”, é uma belíssima contemplação do mar:

O rio Amarelo, representado por seu Espírito, navega entorpecido de soberba para o Leste, com as águas transbordantes do degelo das neves das vastas estepes do Oeste. Tão grande é sua largura que não é possível distinguir, de uma margem a outra, um cavalo de um boi. Quando chega ao mar do Leste e contempla, de um lado e de outro, aquela extensão ilimitada, percebe sua própria miséria e ignorância, e torna-se discípulo humilde do Mar do Leste. Este lhe diz que, apesar de jamais ter experimentado mudança em seu caudal de águas, nem na primavera nem no outono, sente-se, em comparação com o Universo inteiro, como um simples seixo ou um pequeno arbusto na imensa montanha, ou como um grão num vasto celeiro. O Espírito do Rio pergunta-lhe onde está a diferença entre o grande e o pequeno. “Posso dizer que o Universo é grande e pequena a ponta do pelo outonal do gado?” “Não”, responde-lhe. “Não há dimensões definidas. Cada coisa tem a dimensão que lhe corresponde. Se do pequeno se contempla o grande, não é possível abarcá-lo por inteiro; mas, se do grande se observa o pequeno, tampouco se pode vê-lo com clareza. Se as coisas são vistas do ponto de vista do Tao, não existe diferença entre o vil e o precioso. Se são vistas do ponto de vista das próprias coisas, cada coisa se considera preciosa a si mesma e vil às demais.”

O Céu, com seus astros luminosos; as estações, que se sucedem ordenadamente para a procriação dos seres; a Terra generosa, que em cooperação com o Céu faz crescer os seres silenciosamente — tudo isso são, para Chuang Tzu, expressões visíveis do Tao oculto e imanente neles. Como Lao Tzu, seu mestre, é grande admirador da natureza. Sua elevada espiritualidade é um humanismo espiritualista.

Como os estóicos e os platônicos, deseja aperfeiçoar a porção mais nobre do homem — a porção divina do Tao imanente nele. Sua ascese consiste em desprender o coração de suas inclinações ao mundo sensível das coisas para retornar à natureza primitiva e pura, tal como a formou o Céu, ou o Tao.

Chuang Tzu não foi eremita como muitos outros ascetas de seu tempo. Ri-se deles. Para ele, a perfeição não está no afastamento físico do mundo, mas na gnosis, ou conhecimento do Tao. Aquele que alcançou a Unidade na qual todas as diferenças criadas se identificam, chegou à calma perfeita do espírito, à ataraxia, meta suprema também da espiritualidade das escolas gregas.

A fonte da perfeição moral do homem é a mesma que a fonte de sua vida: o Tao. De Chuang Tzu pode repetir-se o que os historiadores da Filosofia dizem de Platão — que sua vida foi um anseio por uma realidade fixa, estável e necessária, acima da mobilidade, da contingência e da impermanência dos seres do mundo físico.

O Tao de Lao Tzu e Chuang Tzu é o Intelecto (nous) de Platão, a Unidade primeira e suprema, o Bem. O que Santo Agostinho diz dos platônicos — que conheceram a Deus como “a causa da constituição do universo, a luz para a percepção da verdade e a fonte da vida feliz” — deve ser dito, com igual razão, de Lao Tzu e de Chuang Tzu.

Traço de sua personalidade ampla e cordial é sua íntima amizade com seu adversário doutrinal, o sofista Hui Tzu. Com ele distendia os poderosos recursos de sua inteligência superior.

Chuang Tzu passou, certa vez, por um enterro, próximo ao túmulo de Hui Tzu. Olhou-o e disse aos que o acompanhavam: “Um habitante de Ying (antiga capital do reino de Chu) costumava alvejar a ponta do nariz com uma camada de cal tão delgada quanto a asa de uma mosca e convidava o artesão Shih a removê-la com um golpe de machado. O artesão Shih manejava o machado e, com o vento que produzia, removia toda a cal do nariz. A cal desaparecia sem ferir o nariz. Aquele homem de Ying não se perturbava em absoluto. O soberano Yuan, do reino de Sung, ouviu falar dessa habilidade. Chamou o artesão Shih à sua presença e lhe disse: ‘Tenta fazê-lo, para que eu veja’. O artesão Shih respondeu: ‘Teu servo poderia tentar cortar a mancha de cal, mas o sujeito em quem o fazia morreu há muito tempo. Desde que esse mestre morreu, também eu perdi o meu sujeito; já não posso mais discutir com ele.’”

Convém também destacar, em sua personalidade de escritor, o trato que dá a Confúcio. Confúcio e sua escola são adversários irreconciliáveis do taoísmo. Chuang Tzu ataca a fastuosidade vazia e cerimoniosa do ritualismo confuciano, mas trata o próprio Confúcio sempre com deferência. Reconhecendo o grande prestígio que, em sua época, havia adquirido o mestre dos Ju, faz dele, com muita graça, discípulo e admirador do taoísmo. Com isso está dito que as numerosas anedotas em que introduz Confúcio não são históricas, mas recursos literários de sua ágil inteligência. No capítulo 27, página 201, afirma que a culpa de haver recorrido a tais recursos — de haver atribuído a outros suas próprias ideias — cabe aos leitores, que dão mais crédito às autoridades do que à verdade da própria doutrina. Além disso, para tratar de celebrar um matrimônio e recomendar o próprio filho, não é o pai a pessoa mais qualificada.